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Nutrição

Alimentação do cachorro: o que dar, quanto dar e o que evitar

A pergunta que ninguém responde com número é justamente a mais importante: quanto dar por dia. Veja a fórmula usada na clínica, a tabela por peso, o teste das costelas e o que a ciência mostra sobre comida caseira, dieta crua e troca de ração.

Por Redação TPSA Publicado em 11 min de leitura

Cão comendo ração em tigela branca
Foto: cottonbro studio / Pexels

Alimentação é o assunto em que mais se opina e menos se calcula. A pergunta que quase ninguém responde com número — quanto dar por dia — tem fórmula, e ela cabe em duas linhas. Este guia junta o que a literatura veterinária alemã recomenda na rotina com os dados que faltam no debate brasileiro, incluindo o tamanho real do problema de peso nos nossos cães.

Neste artigo

O que o cão realmente precisa comer

Para entender o que faz bem ao cão, vale olhar de onde ele veio. O ancestral não comia só músculo: comia a presa inteira — vísceras, ossos, conteúdo intestinal — e completava com frutas, raízes e insetos. O cão moderno herdou essa flexibilidade: é um carnívoro que digere bem vegetais, e não um lobo de apartamento.

Na prática, uma dieta adequada tem carne de qualidade como base e quantidade suficiente de minerais, vitaminas e oligoelementos. O que entra bem no cardápio:

Do outro lado: açúcar não tem função nenhuma na comida de cão. Cereais como milho, arroz e soja aparecem com frequência nas rações e não são proibidos — são fonte de energia barata —, mas também não são indispensáveis. Corantes, aromatizantes e conservantes desnecessários entram na mesma categoria: não fazem falta ao animal, fazem falta ao produto.

Pessoa servindo ração seca em uma tigela
Porção medida, não "o que couber no pote". Foto: cottonbro studio / Pexels

Quanto dar por dia: a conta que o veterinário faz

A tabela do saco de ração é um ponto de partida largo: ela vale para um cão médio, com atividade média, que provavelmente não é o seu. A conta usada na clínica é mais simples do que parece e leva 30 segundos.

Passo 1 — energia em repouso (RER)

RER = 70 × (peso em kg elevado a 0,75)

Passo 2 — energia de manutenção (MER)

Multiplique o RER pelo fator que descreve o seu cão:

Passo 3 — converter em gramas

Procure no rótulo a energia metabolizável (kcal/kg). A maioria das rações secas para cães fica entre 3.500 e 4.000 kcal/kg. Divida as calorias do dia por esse número.

Peso do cãoRER (kcal)Pouco ativo (×1,2)Ativo (×1,4)Ração de 3.800 kcal/kg
5 kg234281 kcal328 kcal74 g a 86 g
10 kg394472 kcal551 kcal124 g a 145 g
20 kg662794 kcal927 kcal209 g a 244 g
30 kg8971.077 kcal1.256 kcal283 g a 331 g
40 kg1.1131.336 kcal1.559 kcal352 g a 410 g

Fórmulas do Global Nutrition Toolkit da WSAVA. Valores para cães adultos saudáveis; filhote, gestante, idoso e cão doente seguem outra conta.

Repare que a diferença entre "pouco ativo" e "ativo" chega a 60 gramas por dia num cão de 30 kg. É por isso que a mesma ração engorda o cão do vizinho e mantém o seu: a porção é individual. E há dois detalhes que derrubam qualquer cálculo:

Como saber se está certo: as costelas não mentem

Cão adulto correndo na grama, com a cintura visível de perfil
Cintura visível de cima e abdome retraído de perfil: o desenho de um cão no peso. Foto: Alexander Nadrilyanski / Pexels

A avaliação que cabe em uma frase — "sentir as costelas, mas não vê-las" — tem uma versão completa em três checagens, feitas com a mão e não com a balança:

  1. Costelas — devem ser sentidas com pressão leve, como o dorso da sua mão. Se precisar apertar, sobra gordura.
  2. Vista de cima — deve haver cintura atrás das costelas. Corpo em formato de tubo é excesso de peso.
  3. Vista de lado — o abdome sobe em direção à virilha. Barriga reta ou pendendo é sinal de sobrepeso.

Na clínica isso vira o escore de condição corporal, numa escala de 1 a 9, em que o alvo é 4 ou 5. E aqui está o dado que dá a dimensão do problema no Brasil: um levantamento da Faculdade de Medicina Veterinária da USP encontrou 40,5% dos cães adultos com excesso de peso, sendo 14,6% já obesos; em Porto Alegre, a UFRGS achou 35,76%. Entre cães jovens, a proporção sobe de 21% antes dos 6 meses para 52% entre 18 e 24 meses — ou seja, o problema começa cedo, na fase em que o tutor acha graça em ver o filhote comer.

Excesso de peso não é estética: encurta a vida, agrava artrose, aumenta risco cirúrgico e anestésico e piora doenças respiratórias e cardíacas.

Quantas vezes por dia e a regra do passeio

Primeiro o passeio, depois a comida

Correr, brincar ou pular logo depois de uma refeição farta aumenta o risco de torção gástrica — o estômago cheio gira sobre o próprio eixo, estrangula a circulação e leva a choque em poucas horas. É emergência cirúrgica, com risco de morte, e atinge sobretudo cães grandes e de peito profundo, como pastor-alemão, boxer, dogue e setter. A regra é simples: passeia, descansa, come — e depois descansa de novo por cerca de uma hora.

Ração seca ou úmida?

As duas cumprem o papel, desde que sejam alimento completo — a expressão que, pela Instrução Normativa 30/2009 do Ministério da Agricultura, indica um produto formulado para atender integralmente às exigências nutricionais do animal. No rótulo, procure também a composição e os níveis de garantia: é o que é obrigatório e verificável, ao contrário do texto de propaganda da frente do pacote.

Misturar as duas é possível e comum. Já sobre trocar de marca com frequência, a orientação por aqui é conservadora: se o cão vai bem com o que come, mantenha. Troca frequente é causa comum de diarreia em cães sensíveis e não traz benefício por si só. Quando houver motivo de verdade — mudança de fase de vida, indicação clínica, produto que saiu de linha —, faça a transição devagar, como na seção mais abaixo.

Cão esperando a refeição ser preparada na cozinha
Comida caseira funciona — desde que a receita venha de quem calcula nutrientes. Foto: Amar Preciado / Pexels

Comida caseira e dieta crua: o que os estudos mostram

Alimentação natural cresceu muito, e o argumento é bom: o tutor sabe exatamente o que vai no pote, sem aditivos. O problema não é a comida de verdade — é a receita improvisada.

Uma avaliação de 100 receitas caseiras publicadas na internet (75 para cães e 25 para gatos), comparadas às recomendações do NRC e da FEDIAF, chegou a um resultado que deveria circular mais: nenhuma atendia a todos os nutrientes, e mais de 82% tinham três ou mais nutrientes abaixo do recomendado. As faltas mais comuns em receitas para cães: selênio, cálcio, potássio e zinco. Deficiência de cálcio em dieta caseira é causa clássica de doença óssea em cão jovem.

Ou seja: comida caseira pode ser excelente, mas precisa de formulação individual feita por médico veterinário, de preferência com especialização em nutrição — com suplementação calculada, não com "um pouquinho de tudo". Vale ainda mais para filhote, idoso, gestante e cão com doença crônica.

Dieta crua (BARF)

Os prós e contras, sem torcida:

E os ossos?

A recomendação que seguimos aqui é a da maioria dos médicos-veterinários no Brasil: não ofereça ossos. Os riscos são concretos e frequentes na rotina clínica:

No lugar deles, prefira mordedores próprios para cães, brinquedos recreativos e petiscos dentais — sempre dentro dos 10% de calorias do dia. Se ainda assim quiser oferecer osso ao seu cão, faça isso apenas com orientação do seu veterinário, que conhece a dentição, o porte e o histórico dele. E nunca ofereça o osso do almoço da família.

Dieta vegetariana

Existe literatura europeia dizendo ser teoricamente possível nutrir um cão sem carne, combinando vegetais, ovos, laticínios, massas e arroz. A conduta recomendada no Brasil, porém, é clara: não adote esse tipo de dieta por conta própria. A chance de faltar aminoácido essencial, vitamina B12 e minerais é alta, e as consequências aparecem meses depois, quando já há dano. Se essa é a sua intenção, ela só se sustenta com formulação e acompanhamento de médico-veterinário, de preferência com especialização em nutrição, e exames periódicos.

Filhote, adulto e idoso

O que nunca pode ir no pote

Como trocar de ração sem diarreia

Troca abrupta é a causa número um de diarreia evitável. O esquema recomendado leva cerca de uma semana:

  1. Dias 1 a 3 — 3 partes da ração antiga para 1 da nova.
  2. Dias 4 a 5 — metade de cada.
  3. Dias 6 a 7 — 1 parte da antiga para 3 da nova.
  4. A partir do dia 8 — só a nova.

Se aparecer fezes moles no meio do caminho, volte um degrau e siga mais devagar.

Sinais de que a dieta não está boa

Nenhum desses sinais fecha diagnóstico sozinho — vários têm causas que não são alimentares. Mas todos são motivo para revisar a dieta com quem entende. Se ainda não tem um profissional de confiança, veja a lista de veterinários por cidade no guia.

Fontes

Perguntas frequentes

Quantas vezes por dia devo alimentar meu cachorro?

Filhotes começam com 4 a 5 refeições pequenas por dia e vão reduzindo com a idade. Cães adultos costumam ficar bem com 2 refeições diárias, em horários parecidos todos os dias. O importante é a quantidade total do dia, não o número de vezes — dividir só ajuda na digestão e na ansiedade.

Quanto de ração devo dar por dia?

Calcule: RER = 70 × (peso em kg elevado a 0,75); multiplique por 1,2 se o cão for castrado e pouco ativo, ou por 1,4 se for ativo; divida o resultado pelas kcal/kg da ração (no rótulo). Um cão de 10 kg pouco ativo precisa de cerca de 472 kcal, o que dá aproximadamente 124 g de uma ração de 3.800 kcal/kg. Ajuste conforme o corpo dele responde.

Posso dar comida caseira para meu cachorro?

Pode, desde que a receita seja formulada por um médico veterinário, com suplementação calculada. Uma avaliação de 100 receitas caseiras publicadas na internet mostrou que nenhuma atendia a todos os nutrientes e mais de 82% tinham três ou mais nutrientes abaixo do recomendado — faltavam sobretudo selênio, cálcio, potássio e zinco.

Ração seca ou úmida: qual é melhor?

As duas funcionam quando são alimento completo. A seca é mais econômica, dura mais no pote e favorece o atrito dentário; a úmida hidrata mais e costuma agradar mais ao paladar. Quem dá ração seca precisa garantir água fresca sempre disponível.

Posso dar osso para o meu cachorro?

A orientação da maioria dos veterinários no Brasil é não oferecer ossos. Os cozidos e os de ave estão fora em qualquer hipótese: lascam e podem perfurar o trato digestivo. O osso cru também traz risco de fratura de dente, obstrução e constipação. Prefira mordedores próprios para cães e petiscos dentais, e converse com o seu veterinário antes de abrir exceção.

Como trocar a ração sem causar diarreia?

Faça a transição em cerca de uma semana: três dias com 3 partes da ração antiga para 1 da nova, dois dias meio a meio, dois dias com 1 parte da antiga para 3 da nova e, por fim, só a nova. Se as fezes amolecerem, volte ao passo anterior e siga mais devagar.

Este artigo te ajudou?
Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico veterinário. Diante de qualquer sinal de alerta, procure atendimento presencial.

Fonte e inspiração: pauta e estrutura inspiradas na publicação Die richtige Ernährung für den Hund (FOCUS-Tierarzt). Este texto foi escrito pela redação do tudoparaseuanimal.com.br e adaptado à realidade brasileira — não é uma tradução do original.

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