Calendário de vacinação de cães e gatos: o que a lei exige, o que o protocolo pede e o que é opcional
No Brasil, só a antirrábica é obrigatória por lei — e ela é gratuita. Veja o calendário do filhote e do adulto, a diferença entre V8 e V10 e entre V3, V4 e V5, por que a V5 exige exame antes e por que a vacina de leishmaniose está fora do mercado. Com cartão para imprimir.
- Só uma vacina é obrigatória por lei no Brasil
- As essenciais que a lei não cobra, mas o protocolo pede
- Calendário do filhote — cão
- Calendário do filhote — gato
- O reforço anual e a discussão que existe sobre ele
- As opcionais: quando valem e quando não
- A vacina que hoje não está no mercado
- Depois da vacina: o que é normal e quando adiar
- O cartão de vacinação (e um para imprimir)
- Fontes consultadas
Quase toda dúvida sobre vacina de cão e gato cabe em três perguntas: o que é obrigatório, o que é importante e o que é só oferta. A confusão existe porque as três coisas chegam juntas, no mesmo balcão, no mesmo dia — e porque muito do que se lê na internet é tradução de material de outros países, onde a lei e as doenças em circulação são diferentes das nossas.
Este guia separa as três, com o que vale no Brasil. No fim tem um cartão de vacinação para imprimir, de graça, com as linhas do protocolo brasileiro já prontas.
Só uma vacina é obrigatória por lei no Brasil
É a antirrábica. Ela é a única vacina de cão e gato oferecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde, e a única cuja aplicação é exigida por lei — a base legal são a Lei nº 6.259, de 30 de outubro de 1975, que criou o Programa Nacional de Imunizações, e o Decreto nº 78.231, de 12 de agosto de 1976. O Programa Nacional de Profilaxia da Raiva existe desde 1973 e é o que levou a vacinação canina e felina a todo o território nacional.
O resultado dessa política aparece nos números do Ministério da Saúde: os casos registrados caíram de cerca de 1.200 em 1999 para 13 em 2025. É uma redução de mais de 99% — e é exatamente o tipo de conquista que se perde quando a cobertura vacinal cai.
Como funciona na prática
- Idade mínima: a partir dos 3 meses. Cães e gatos saudáveis.
- Primeiro reforço: 30 dias depois da primeira dose.
- Depois: uma dose por ano, para a vida inteira.
- Onde: nas campanhas anuais de vacinação e, em várias cidades, nos postos de zoonoses o ano inteiro. Em São Paulo, por exemplo, a prefeitura oferece a vacina gratuitamente durante todo o ano. Vale procurar a página da vigilância em saúde do seu município.
As essenciais que a lei não cobra, mas o protocolo pede
Fora da antirrábica, nenhuma vacina é exigida por lei — e ainda assim há um grupo que os protocolos veterinários tratam como essencial, porque protege contra doenças comuns, graves e que matam filhote com frequência. O Conselho Federal de Medicina Veterinária orienta o tutor a seguir o protocolo estabelecido para cada espécie, respeitando a periodicidade, com o médico-veterinário responsável definindo o esquema.
No cão: a múltipla (V8 ou V10)
É uma vacina só, com vários componentes. Protege contra:
- cinomose — viral, ataca o sistema nervoso, mata e deixa sequela;
- parvovirose — viral, causa diarreia com sangue e desidratação fulminante em filhote;
- hepatite infecciosa canina (adenovírus tipo 1) e adenovírus tipo 2;
- parainfluenza canina — um dos agentes do complexo respiratório;
- coronavirose canina;
- leptospirose — bacteriana, transmissível ao ser humano, ligada a enchente e rato.
A diferença entre V8 e V10 está principalmente na leptospirose: a V10 cobre mais sorovares da bactéria. Em cidade com enchente, em zona rural ou onde há muito rato, essa cobertura extra é o argumento que pesa.
No gato: a múltipla (V3, V4 ou V5)
- V3 — panleucopenia felina, rinotraqueíte (herpesvírus) e calicivirose;
- V4 — as três acima mais clamidiose;
- V5 — as quatro acima mais leucemia felina (FeLV).
Calendário do filhote — cão
Este é o esquema usado na prática clínica brasileira. Os intervalos podem variar por indicação do veterinário, pela vacina usada e pela situação do filhote — quem define é quem examina.
| Idade | O que se aplica | Por quê |
|---|---|---|
| 6 a 8 semanas | Múltipla (V8 ou V10) — 1ª dose | É quando a proteção que vem do leite da mãe começa a cair |
| +21 a 30 dias | Múltipla — 2ª dose | Uma dose só não protege: a série é que constrói a imunidade |
| +21 a 30 dias | Múltipla — 3ª dose | Cobre o filhote cuja imunidade materna durou mais |
| a partir de 12 semanas (3 meses) | Antirrábica — 1ª dose | Idade mínima definida pelo programa nacional |
| +30 dias | Antirrábica — reforço | Fecha o esquema inicial da raiva |
| 16 semanas ou mais | Última dose da série da múltipla | A diretriz internacional pede que a dose final não seja antes disso |
Esse último ponto merece atenção porque é onde muito filhote fica desprotegido sem ninguém perceber. As diretrizes de vacinação da WSAVA (a associação mundial de veterinária de pequenos animais) recomendam doses a cada 2 a 4 semanas com a dose final aos 16 semanas de idade ou depois. Um filhote que tomou três doses e terminou com 14 semanas pode ter tido a última anulada pela imunidade que herdou da mãe. Se o seu terminou a série cedo, pergunte sobre uma dose adicional.
Calendário do filhote — gato
| Idade | O que se aplica | Por quê |
|---|---|---|
| 8 semanas (2 meses) | Múltipla (V3, V4 ou V5) — 1ª dose | Início habitual da série no gato |
| +21 a 30 dias | Múltipla — 2ª dose | A série segue com reforços até cerca de 4 meses |
| a partir de 12 semanas (3 meses) | Antirrábica — 1ª dose | Gato também é obrigado por lei, e gato também transmite raiva |
| +30 dias | Antirrábica — reforço | Fecha o esquema inicial |
| antes da V5 | Teste de FeLV (e FIV) | Gato positivo para FeLV recebe V3 ou V4, não V5 |
Vale dizer o que muita gente não ouve: gato que nunca sai também precisa de vacina. Panleucopenia entra em casa pela sola do sapato, o herpesvírus fica latente e volta em situação de estresse, e a antirrábica é exigida por lei independentemente de o animal viver no décimo andar.
O reforço anual e a discussão que existe sobre ele
No Brasil, a prática consolidada é reforço anual da múltipla e da antirrábica. É o que está na bula da maioria das vacinas vendidas aqui e o que a maior parte das clínicas segue.
Aqui entra uma divergência que este site prefere contar do que esconder. As diretrizes de 2024 da WSAVA registram que existe evidência revisada por pares de que a duração da imunidade das vacinas essenciais modernas é de muitos anos, e admitem recomendação de revacinação trienal ou menos frequente para os componentes essenciais em adultos. A mesma diretriz descreve a opção de sorologia (teste de título de anticorpos) algumas semanas depois da série inicial para decidir se há necessidade de nova dose.
- A antirrábica é anual e ponto. Não é escolha clínica, é exigência legal e de saúde pública no Brasil. Nenhuma diretriz internacional muda isso.
- A múltipla é conversa para ter com o seu veterinário. Se você quer discutir intervalo maior ou sorologia, leve o assunto para a consulta. Quem conhece o histórico do animal, a região onde ele vive e o que está circulando ali é quem pode decidir. Deixar de vacinar por conta própria, com base em artigo da internet — inclusive este —, é como escolher o antibiótico do filho pelo Google.
As opcionais: quando valem e quando não
Existem vacinas não essenciais, que fazem sentido dependendo do estilo de vida do animal e do risco real de exposição. A decisão é do veterinário, caso a caso.
Tosse dos canis e gripe canina
O complexo respiratório infeccioso canino pode ser causado pela bactéria Bordetella bronchiseptica, pela parainfluenza, pelo adenovírus tipo 2 ou por uma combinação deles. A vacina contra Bordetella existe sozinha ou combinada. Ela é indicada principalmente para cão que convive com muitos outros: hotel, creche, hospedagem, pet shop com movimento, exposição, prova esportiva, canil coletivo.
Se o seu cão sai de casa apenas para passear na rua com você, provavelmente ela não muda nada. Se ele vai passar as férias numa hospedagem, muitos estabelecimentos exigem — vale perguntar com antecedência, porque a proteção não é imediata.
Duas que a diretriz internacional não recomenda
Vale saber, para poder perguntar:
- Coronavirose canina. A WSAVA classifica a vacina como não recomendada, porque há pouca evidência de que o coronavírus canino seja um patógeno entérico primário ou de que a vacina proteja contra essa infecção. Ele é um dos componentes da V8 e da V10 vendidas aqui — o que não é motivo para recusar a múltipla, que existe pela cinomose, pela parvovirose e pela leptospirose. É só um componente cuja utilidade a diretriz questiona.
- Giárdia. Também está entre as não recomendadas pela diretriz internacional: as vacinas não impedem a infecção nem a reinfecção. Existe argumento de uso em ambiente com muitos animais juntos, pela redução da eliminação de cistos, mas isso é decisão clínica bem específica — e é razoável pedir explicação antes de pagar por ela.
A vacina que hoje não está no mercado
Este é o ponto em que quase todo texto sobre vacinação de cães no Brasil está desatualizado, e é também o melhor exemplo de por que conteúdo estrangeiro traduzido não serve: a vacina contra leishmaniose visceral canina — a Leish-Tec, única licenciada no país — teve fabricação e venda suspensas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em maio de 2023, com recolhimento de oito lotes, depois de uma fiscalização constatar desvio de conformidade que poderia causar falta de eficácia. Ela segue fora do mercado.
Se você mora em área endêmica — boa parte do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Norte —, a prevenção hoje passa por bloquear o mosquito-palha, não por vacinar:
- coleira com deltametrina, trocada no prazo indicado pelo fabricante;
- pipetas e produtos repelentes de uso tópico, prescritos pelo veterinário;
- telas de malha fina em janelas e no canil, sobretudo ao anoitecer;
- evitar acúmulo de matéria orgânica no quintal, que é onde o mosquito se desenvolve.
Vale registrar também que o Ministério da Saúde não considera a vacinação em massa de cães uma ferramenta de controle da doença em saúde pública, por falta de evidência de que reduza os casos humanos e caninos. Ou seja: mesmo quando a vacina voltar, ela será uma proteção individual do seu cão — decidida com o seu veterinário —, e não a solução do problema.
Depois da vacina: o que é normal e quando adiar
Reação leve é comum e passa: sonolência, menos apetite, dor no local da aplicação nas primeiras 24 a 48 horas. Um caroço pequeno onde a agulha entrou também pode aparecer e regredir.
Quando a vacina deve esperar
A orientação das secretarias de saúde é clara: animal com diarreia, vômito, alteração de comportamento, em tratamento veterinário ou em recuperação de cirurgia deve aguardar a plena recuperação antes de ser vacinado. Vacinar animal doente é ruim duas vezes: a resposta imune fica pior e o desconforto fica maior.
Some a isso o básico que costuma passar batido: vermifugar antes (animal com carga parasitária alta responde pior), aplicar em animal hidratado e alimentado, e respeitar o intervalo entre vacinas diferentes que o veterinário indicar.
O cartão de vacinação (e um para imprimir)
O cartão é o documento que prova o que foi feito. Sem ele, um novo veterinário não sabe em que ponto o esquema está, hotel e creche não aceitam o animal, e viagem interestadual ou internacional simplesmente não acontece.
Um cartão que serve tem, para cada aplicação:
- nome da vacina e a dose (1ª, 2ª, reforço);
- data da aplicação e a data prevista da próxima;
- número do lote e fabricante — é o que permite rastrear um problema em um frasco específico;
- assinatura e CRMV do médico-veterinário que aplicou.
Fontes consultadas
Este texto foi escrito a partir de fontes oficiais brasileiras e da diretriz internacional de referência. Onde as duas divergem — como no intervalo de reforço da múltipla —, a prática brasileira está em primeiro plano e a divergência aparece explicada, porque é aqui que o seu animal vive:
- Ministério da Saúde — Raiva animal e Programa Nacional de Profilaxia da Raiva: histórico do programa e queda dos casos.
- Ministério da Saúde — Cobertura vacinal de cães e gatos: obrigatoriedade, base legal (Lei nº 6.259/1975 e Decreto nº 78.231/1976), idade mínima, reforço de 30 dias e periodicidade anual.
- Prefeitura de São Paulo — Vacinação contra raiva animal: idade de 3 meses, gratuidade durante todo o ano e as condições em que a vacinação deve aguardar.
- CFMV — Posicionamento do Sistema CFMV/CRMVs sobre controle populacional e vacinação animal: orientação de seguir o protocolo da espécie com o profissional responsável.
- WSAVA — Diretrizes de vacinação de cães e gatos (2024): classificação de vacinas essenciais, não essenciais e não recomendadas; doses a cada 2 a 4 semanas com a final aos 16 semanas ou depois; revacinação trienal e sorologia em adultos; coronavirose canina e giárdia entre as não recomendadas. A WSAVA publica tabelas traduzidas para o português.
- CRMV-PA — MAPA suspende fabricação e venda de vacina contra leishmaniose (31/05/2023): suspensão da Leish-Tec, recolhimento de oito lotes e o motivo técnico.
- Instituto Pasteur / Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo — Informe técnico de vacinação antirrábica canina e felina: documento de referência técnica do programa antirrábico.
Este guia não substitui a consulta. Protocolo vacinal é decisão de médico-veterinário, que examina o animal, conhece a região e responde pelo que aplica. Use este texto para chegar na consulta sabendo o que perguntar — não para decidir sozinho o que aplicar ou o que deixar de aplicar.
Perguntas frequentes
Quais vacinas são obrigatórias por lei para cães e gatos no Brasil?
Apenas a antirrábica. Ela é a única vacina de cão e gato exigida por lei no Brasil e a única oferecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde, com base na Lei nº 6.259/1975 e no Decreto nº 78.231/1976. Deve ser aplicada a partir dos 3 meses de idade, com reforço 30 dias depois da primeira dose e revacinação anual pela vida inteira. As outras vacinas — a múltipla V8 ou V10 no cão e a V3, V4 ou V5 no gato — não são exigidas por lei, mas são consideradas essenciais pelos protocolos veterinários porque protegem contra doenças graves e comuns.
Qual a diferença entre a vacina V8 e a V10 para cachorro?
As duas protegem contra cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa canina, adenovírus tipo 2, parainfluenza, coronavirose e leptospirose. A diferença principal está na leptospirose: a V10 cobre mais sorovares da bactéria. Em cidade com enchente, em zona rural ou onde há muito rato, essa cobertura extra é o que justifica a V10. Quem decide qual usar é o médico-veterinário, olhando onde e como o cão vive.
Gato que não sai de casa precisa tomar vacina?
Precisa. A antirrábica é exigida por lei independentemente de o gato viver só dentro de casa. E a múltipla protege contra doenças que entram sozinhas: a panleucopenia pode ser levada na sola do sapato, e o herpesvírus da rinotraqueíte fica latente no organismo e volta em situações de estresse, como mudança, obra ou chegada de outro animal. Gato de apartamento adoece menos, mas não está fora de risco.
Preciso fazer exame antes de aplicar a vacina V5 no gato?
Sim. A V5 inclui o componente contra leucemia felina (FeLV), e o gato precisa ser testado para FeLV antes — o teste normalmente vem junto com o de FIV. Se o resultado for positivo para FeLV, o protocolo usa V3 ou V4, sem o componente de leucemia: vacinar contra uma infecção que já existe não traz benefício. Para a FIV não há vacina aprovada no Brasil; a prevenção é castrar, evitar brigas e orientar a convivência entre gatos positivos e negativos.
A vacina contra leishmaniose ainda existe no Brasil?
Não está disponível. A Leish-Tec, única vacina contra leishmaniose visceral canina licenciada no país, teve fabricação e venda suspensas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em maio de 2023, com recolhimento de oito lotes, depois de uma fiscalização constatar desvio de conformidade que poderia comprometer a eficácia. Enquanto isso, a prevenção em área endêmica é bloquear o mosquito-palha: coleira com deltametrina, produtos repelentes prescritos pelo veterinário, telas de malha fina e quintal sem acúmulo de matéria orgânica.
É verdade que a vacina múltipla não precisa ser anual?
Existe discussão real sobre isso, e ela merece ser levada ao veterinário, não resolvida pela internet. As diretrizes de 2024 da WSAVA registram evidência de que a duração da imunidade das vacinas essenciais modernas é de muitos anos e admitem revacinação trienal ou menos frequente em adultos, além da opção de medir anticorpos por sorologia. No Brasil, a prática consolidada e a bula da maioria das vacinas indicam reforço anual. Uma coisa, porém, não está em discussão: a antirrábica é anual por exigência legal e de saúde pública, e isso nenhuma diretriz internacional muda.
Onde consigo um cartão de vacinação para imprimir?
Temos um gratuito em tudoparaseuanimal.com.br/cartao-de-vacinacao, com uma folha para cão e uma para gato, já com as linhas do protocolo brasileiro e espaço para vermifugação e antiparasitários. Ele serve como o seu controle, para não perder a data do reforço, mas não substitui o cartão oficial da clínica: o documento que vale para viagem, hotel e exigência legal é o que tem assinatura e CRMV do veterinário e o número do lote de cada vacina aplicada.
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