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Prevenção

Calendário de vacinação de cães e gatos: o que a lei exige, o que o protocolo pede e o que é opcional

No Brasil, só a antirrábica é obrigatória por lei — e ela é gratuita. Veja o calendário do filhote e do adulto, a diferença entre V8 e V10 e entre V3, V4 e V5, por que a V5 exige exame antes e por que a vacina de leishmaniose está fora do mercado. Com cartão para imprimir.

Por Redação TPSA Publicado em Atualizado em 14 min de leitura

Cão de pelo claro contido por voluntário enquanto veterinário prepara a seringa da vacina
Foto: Mikhail Nilov / Pexels
Neste artigo

Quase toda dúvida sobre vacina de cão e gato cabe em três perguntas: o que é obrigatório, o que é importante e o que é só oferta. A confusão existe porque as três coisas chegam juntas, no mesmo balcão, no mesmo dia — e porque muito do que se lê na internet é tradução de material de outros países, onde a lei e as doenças em circulação são diferentes das nossas.

Este guia separa as três, com o que vale no Brasil. No fim tem um cartão de vacinação para imprimir, de graça, com as linhas do protocolo brasileiro já prontas.

Só uma vacina é obrigatória por lei no Brasil

É a antirrábica. Ela é a única vacina de cão e gato oferecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde, e a única cuja aplicação é exigida por lei — a base legal são a Lei nº 6.259, de 30 de outubro de 1975, que criou o Programa Nacional de Imunizações, e o Decreto nº 78.231, de 12 de agosto de 1976. O Programa Nacional de Profilaxia da Raiva existe desde 1973 e é o que levou a vacinação canina e felina a todo o território nacional.

Por que essa é diferente de todas as outras. A raiva é uma zoonose praticamente sempre fatal — em pessoas e em animais. Vacinar o seu cão não protege só ele: protege a sua casa e o seu bairro. É por isso que essa vacina saiu da esfera da escolha individual e entrou na lei.

O resultado dessa política aparece nos números do Ministério da Saúde: os casos registrados caíram de cerca de 1.200 em 1999 para 13 em 2025. É uma redução de mais de 99% — e é exatamente o tipo de conquista que se perde quando a cobertura vacinal cai.

Como funciona na prática

Médico-veterinário aplicando vacina na região da nuca de um cão de pelo claro
A antirrábica é gratuita na rede pública, mas a múltipla você compra. Foto: Pranidchakan Boonrom / Pexels

As essenciais que a lei não cobra, mas o protocolo pede

Fora da antirrábica, nenhuma vacina é exigida por lei — e ainda assim há um grupo que os protocolos veterinários tratam como essencial, porque protege contra doenças comuns, graves e que matam filhote com frequência. O Conselho Federal de Medicina Veterinária orienta o tutor a seguir o protocolo estabelecido para cada espécie, respeitando a periodicidade, com o médico-veterinário responsável definindo o esquema.

No cão: a múltipla (V8 ou V10)

É uma vacina só, com vários componentes. Protege contra:

A diferença entre V8 e V10 está principalmente na leptospirose: a V10 cobre mais sorovares da bactéria. Em cidade com enchente, em zona rural ou onde há muito rato, essa cobertura extra é o argumento que pesa.

No gato: a múltipla (V3, V4 ou V5)

A V5 exige exame antes. O gato precisa ser testado para FeLV (e o teste costuma vir junto com o de FIV) antes de receber a vacina que inclui leucemia felina. Em gato que já é positivo para FeLV, o protocolo usa V3 ou V4 — vacinar contra uma infecção que já existe não traz benefício. E, para a FIV, não há vacina aprovada no Brasil: a prevenção é castrar, evitar briga e não misturar gato positivo com negativo sem orientação.

Calendário do filhote — cão

Este é o esquema usado na prática clínica brasileira. Os intervalos podem variar por indicação do veterinário, pela vacina usada e pela situação do filhote — quem define é quem examina.

IdadeO que se aplicaPor quê
6 a 8 semanas Múltipla (V8 ou V10) — 1ª dose É quando a proteção que vem do leite da mãe começa a cair
+21 a 30 dias Múltipla — 2ª dose Uma dose só não protege: a série é que constrói a imunidade
+21 a 30 dias Múltipla — 3ª dose Cobre o filhote cuja imunidade materna durou mais
a partir de 12 semanas (3 meses) Antirrábica — 1ª dose Idade mínima definida pelo programa nacional
+30 dias Antirrábica — reforço Fecha o esquema inicial da raiva
16 semanas ou mais Última dose da série da múltipla A diretriz internacional pede que a dose final não seja antes disso

Esse último ponto merece atenção porque é onde muito filhote fica desprotegido sem ninguém perceber. As diretrizes de vacinação da WSAVA (a associação mundial de veterinária de pequenos animais) recomendam doses a cada 2 a 4 semanas com a dose final aos 16 semanas de idade ou depois. Um filhote que tomou três doses e terminou com 14 semanas pode ter tido a última anulada pela imunidade que herdou da mãe. Se o seu terminou a série cedo, pergunte sobre uma dose adicional.

Antes de terminar a série, cuidado com a rua. Filhote com vacinação incompleta não deve andar em calçada, praça ou pet shop movimentado. Parvovirose sobrevive no ambiente por meses e entra pela boca — pelo chão que ele lambe, não pelo cão que ele cumprimenta. Socializar é importante, mas nessa fase se faz em casa e com animais que você sabe estarem vacinados.

Calendário do filhote — gato

Gato de pelagem escura contido com cuidado por duas pessoas enquanto recebe vacina
No gato, a série começa mais tarde que no cão e a V5 depende de exame. Foto: Gustavo Fring / Pexels
IdadeO que se aplicaPor quê
8 semanas (2 meses) Múltipla (V3, V4 ou V5) — 1ª dose Início habitual da série no gato
+21 a 30 dias Múltipla — 2ª dose A série segue com reforços até cerca de 4 meses
a partir de 12 semanas (3 meses) Antirrábica — 1ª dose Gato também é obrigado por lei, e gato também transmite raiva
+30 dias Antirrábica — reforço Fecha o esquema inicial
antes da V5 Teste de FeLV (e FIV) Gato positivo para FeLV recebe V3 ou V4, não V5

Vale dizer o que muita gente não ouve: gato que nunca sai também precisa de vacina. Panleucopenia entra em casa pela sola do sapato, o herpesvírus fica latente e volta em situação de estresse, e a antirrábica é exigida por lei independentemente de o animal viver no décimo andar.

O reforço anual e a discussão que existe sobre ele

No Brasil, a prática consolidada é reforço anual da múltipla e da antirrábica. É o que está na bula da maioria das vacinas vendidas aqui e o que a maior parte das clínicas segue.

Aqui entra uma divergência que este site prefere contar do que esconder. As diretrizes de 2024 da WSAVA registram que existe evidência revisada por pares de que a duração da imunidade das vacinas essenciais modernas é de muitos anos, e admitem recomendação de revacinação trienal ou menos frequente para os componentes essenciais em adultos. A mesma diretriz descreve a opção de sorologia (teste de título de anticorpos) algumas semanas depois da série inicial para decidir se há necessidade de nova dose.

Como usar essa informação sem se atrapalhar. Duas coisas são diferentes:

As opcionais: quando valem e quando não

Existem vacinas não essenciais, que fazem sentido dependendo do estilo de vida do animal e do risco real de exposição. A decisão é do veterinário, caso a caso.

Tosse dos canis e gripe canina

O complexo respiratório infeccioso canino pode ser causado pela bactéria Bordetella bronchiseptica, pela parainfluenza, pelo adenovírus tipo 2 ou por uma combinação deles. A vacina contra Bordetella existe sozinha ou combinada. Ela é indicada principalmente para cão que convive com muitos outros: hotel, creche, hospedagem, pet shop com movimento, exposição, prova esportiva, canil coletivo.

Se o seu cão sai de casa apenas para passear na rua com você, provavelmente ela não muda nada. Se ele vai passar as férias numa hospedagem, muitos estabelecimentos exigem — vale perguntar com antecedência, porque a proteção não é imediata.

Duas que a diretriz internacional não recomenda

Vale saber, para poder perguntar:

A vacina que hoje não está no mercado

Este é o ponto em que quase todo texto sobre vacinação de cães no Brasil está desatualizado, e é também o melhor exemplo de por que conteúdo estrangeiro traduzido não serve: a vacina contra leishmaniose visceral canina — a Leish-Tec, única licenciada no país — teve fabricação e venda suspensas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em maio de 2023, com recolhimento de oito lotes, depois de uma fiscalização constatar desvio de conformidade que poderia causar falta de eficácia. Ela segue fora do mercado.

Se você mora em área endêmica — boa parte do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Norte —, a prevenção hoje passa por bloquear o mosquito-palha, não por vacinar:

Vale registrar também que o Ministério da Saúde não considera a vacinação em massa de cães uma ferramenta de controle da doença em saúde pública, por falta de evidência de que reduza os casos humanos e caninos. Ou seja: mesmo quando a vacina voltar, ela será uma proteção individual do seu cão — decidida com o seu veterinário —, e não a solução do problema.

Depois da vacina: o que é normal e quando adiar

Reação leve é comum e passa: sonolência, menos apetite, dor no local da aplicação nas primeiras 24 a 48 horas. Um caroço pequeno onde a agulha entrou também pode aparecer e regredir.

Procure o veterinário na hora se aparecer: inchaço no rosto ou no focinho, urticária (vergões na pele), vômito repetido, diarreia intensa, dificuldade para respirar, prostração extrema ou o animal cambaleando. São sinais de reação alérgica grave, que é rara mas existe — e por isso não se vacina animal e sai de viagem na mesma hora.

Quando a vacina deve esperar

A orientação das secretarias de saúde é clara: animal com diarreia, vômito, alteração de comportamento, em tratamento veterinário ou em recuperação de cirurgia deve aguardar a plena recuperação antes de ser vacinado. Vacinar animal doente é ruim duas vezes: a resposta imune fica pior e o desconforto fica maior.

Some a isso o básico que costuma passar batido: vermifugar antes (animal com carga parasitária alta responde pior), aplicar em animal hidratado e alimentado, e respeitar o intervalo entre vacinas diferentes que o veterinário indicar.

O cartão de vacinação (e um para imprimir)

O cartão é o documento que prova o que foi feito. Sem ele, um novo veterinário não sabe em que ponto o esquema está, hotel e creche não aceitam o animal, e viagem interestadual ou internacional simplesmente não acontece.

Um cartão que serve tem, para cada aplicação:

Guarde os dois. O cartão oficial, assinado e com o lote, é o que vale para exigência legal, hotel e viagem — ninguém além de quem aplicou pode preenchê-lo. Um controle seu, em papel ou no celular, é o que evita perder a data do reforço. Nosso cartão de vacinação para imprimir é gratuito, tem uma folha para cão e uma para gato, já com as linhas do protocolo brasileiro, e ainda um espaço para vermifugação e antiparasitários. Imprima, preencha a lápis e fotografe depois de cada consulta.

Fontes consultadas

Este texto foi escrito a partir de fontes oficiais brasileiras e da diretriz internacional de referência. Onde as duas divergem — como no intervalo de reforço da múltipla —, a prática brasileira está em primeiro plano e a divergência aparece explicada, porque é aqui que o seu animal vive:

Este guia não substitui a consulta. Protocolo vacinal é decisão de médico-veterinário, que examina o animal, conhece a região e responde pelo que aplica. Use este texto para chegar na consulta sabendo o que perguntar — não para decidir sozinho o que aplicar ou o que deixar de aplicar.

Perguntas frequentes

Quais vacinas são obrigatórias por lei para cães e gatos no Brasil?

Apenas a antirrábica. Ela é a única vacina de cão e gato exigida por lei no Brasil e a única oferecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde, com base na Lei nº 6.259/1975 e no Decreto nº 78.231/1976. Deve ser aplicada a partir dos 3 meses de idade, com reforço 30 dias depois da primeira dose e revacinação anual pela vida inteira. As outras vacinas — a múltipla V8 ou V10 no cão e a V3, V4 ou V5 no gato — não são exigidas por lei, mas são consideradas essenciais pelos protocolos veterinários porque protegem contra doenças graves e comuns.

Qual a diferença entre a vacina V8 e a V10 para cachorro?

As duas protegem contra cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa canina, adenovírus tipo 2, parainfluenza, coronavirose e leptospirose. A diferença principal está na leptospirose: a V10 cobre mais sorovares da bactéria. Em cidade com enchente, em zona rural ou onde há muito rato, essa cobertura extra é o que justifica a V10. Quem decide qual usar é o médico-veterinário, olhando onde e como o cão vive.

Gato que não sai de casa precisa tomar vacina?

Precisa. A antirrábica é exigida por lei independentemente de o gato viver só dentro de casa. E a múltipla protege contra doenças que entram sozinhas: a panleucopenia pode ser levada na sola do sapato, e o herpesvírus da rinotraqueíte fica latente no organismo e volta em situações de estresse, como mudança, obra ou chegada de outro animal. Gato de apartamento adoece menos, mas não está fora de risco.

Preciso fazer exame antes de aplicar a vacina V5 no gato?

Sim. A V5 inclui o componente contra leucemia felina (FeLV), e o gato precisa ser testado para FeLV antes — o teste normalmente vem junto com o de FIV. Se o resultado for positivo para FeLV, o protocolo usa V3 ou V4, sem o componente de leucemia: vacinar contra uma infecção que já existe não traz benefício. Para a FIV não há vacina aprovada no Brasil; a prevenção é castrar, evitar brigas e orientar a convivência entre gatos positivos e negativos.

A vacina contra leishmaniose ainda existe no Brasil?

Não está disponível. A Leish-Tec, única vacina contra leishmaniose visceral canina licenciada no país, teve fabricação e venda suspensas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em maio de 2023, com recolhimento de oito lotes, depois de uma fiscalização constatar desvio de conformidade que poderia comprometer a eficácia. Enquanto isso, a prevenção em área endêmica é bloquear o mosquito-palha: coleira com deltametrina, produtos repelentes prescritos pelo veterinário, telas de malha fina e quintal sem acúmulo de matéria orgânica.

É verdade que a vacina múltipla não precisa ser anual?

Existe discussão real sobre isso, e ela merece ser levada ao veterinário, não resolvida pela internet. As diretrizes de 2024 da WSAVA registram evidência de que a duração da imunidade das vacinas essenciais modernas é de muitos anos e admitem revacinação trienal ou menos frequente em adultos, além da opção de medir anticorpos por sorologia. No Brasil, a prática consolidada e a bula da maioria das vacinas indicam reforço anual. Uma coisa, porém, não está em discussão: a antirrábica é anual por exigência legal e de saúde pública, e isso nenhuma diretriz internacional muda.

Onde consigo um cartão de vacinação para imprimir?

Temos um gratuito em tudoparaseuanimal.com.br/cartao-de-vacinacao, com uma folha para cão e uma para gato, já com as linhas do protocolo brasileiro e espaço para vermifugação e antiparasitários. Ele serve como o seu controle, para não perder a data do reforço, mas não substitui o cartão oficial da clínica: o documento que vale para viagem, hotel e exigência legal é o que tem assinatura e CRMV do veterinário e o número do lote de cada vacina aplicada.

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Aviso: este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com um médico veterinário. Diante de qualquer sinal de alerta, procure atendimento presencial.

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