O que cachorro não pode comer: a lista por gravidade, com as contas e o que fazer
Nem tudo que faz mal mata, e nem tudo que mata parece perigoso. Esta lista separa os sete alimentos que são emergência de verdade dos que só dão dor de barriga, com as quantidades que a literatura registra e o que fazer na primeira hora — inclusive por que não induzir vômito em casa.
A lista de "alimentos proibidos para cães" é o texto mais copiado da internet pet brasileira — e quase sempre o menos útil. Ela junta num mesmo bloco o que mata em 24 horas e o que, no pior dia, dá dor de barriga; repete números que ninguém conferiu; e termina sem responder a única pergunta que importa quando o estrago já aconteceu: isso que ele comeu, na quantidade que ele comeu, é caso de correr ou de observar?
Aqui a lista está organizada por gravidade, com as quantidades que a literatura veterinária registra e a origem de cada número ao lado. E com uma parte que quase nunca aparece: o que fazer na primeira hora — inclusive o que não fazer, que é a receita caseira de vômito.
- A regra que organiza a lista
- Os sete que podem matar
- Uva e passa — e o parente que ninguém cita
- Xilitol: o perigo que está na bolsa, não na cozinha
- Cebola e alho: a conta que quase todo blog erra
- Álcool, massa crua, macadâmia e sal
- Os que machucam mas raramente matam
- O que é mito, o que é exagero e o que não se sabe
- A cozinha brasileira: onde o risco mora de verdade
- Ele comeu. E agora?
- No Brasil não existe 0800 para animal intoxicado
- Gato não é cachorro pequeno
- O que ele pode comer sem susto
- Fontes consultadas
A regra que organiza a lista
Três informações decidem tudo, e é sempre o mesmo trio: qual substância, quanto o animal pesa e quanto ele comeu. Sem os três, qualquer resposta é chute — a sua e a de quem escreveu a lista de quarenta itens.
Por isso os alimentos aqui estão em três blocos. No primeiro, os que causam lesão de órgão — rim, fígado, sangue, sistema nervoso — e em que a conversa é com o veterinário, não com a internet. No segundo, os que causam estrago mecânico ou digestivo: vômito, diarreia, pancreatite, osso entalado. No terceiro, o que virou lenda e continua sendo repetido.
Uma ressalva honesta sobre os números que você vai ler: dose publicada em estudo é a quantidade em que apareceram sinais clínicos nos animais observados, e não uma linha abaixo da qual está tudo bem. Cão pequeno, filhote, idoso, doente renal ou hepático reage a menos. Use os números para dimensionar a urgência, nunca para decidir que não precisa ligar.
Os sete que podem matar
- Uva, uva-passa, suco de uva — e também tamarindo e cremor de tártaro;
- Xilitol (adoçante de bala, chiclete, pasta de dente e suplemento);
- Chocolate, café, guaraná em pó e energético;
- Cebola, alho, alho-poró e cebolinha, crus ou cozidos;
- Álcool — e massa crua de pão ou de pizza, que vira álcool dentro do estômago;
- Macadâmia;
- Sal em grande quantidade, inclusive massinha de modelar caseira.
| O que comeu | O que faz, e em quanto tempo | A partir de quanto |
|---|---|---|
| Uva e passa | Lesão renal aguda. Vômito nas primeiras 24 h | Sem dose segura conhecida — há relato com quatro a cinco uvas num cão de 8,2 kg |
| Xilitol | Queda brusca de glicose em 30 a 60 min, podendo atrasar até 12 h; lesão de fígado depois de 24 a 48 h | 0,1 g/kg para hipoglicemia; 0,5 g/kg para lesão hepática |
| Chocolate e cafeína | Estimulação cardíaca e neurológica em 2 a 4 h | Sinais leves a partir de 20 mg/kg de metilxantina; convulsão perto de 60 mg/kg |
| Cebola e alho | Destruição de glóbulos vermelhos; a anemia aparece de 1 a vários dias depois | Cão: 15 a 30 g/kg de cebola crua. Gato: 5 g/kg. Alho é 3 a 5 vezes mais tóxico |
| Álcool e massa crua | Depressão do sistema nervoso em cerca de 1 h; a massa ainda incha e distende o estômago | Depende da concentração; massa crua, em qualquer volume relevante |
| Macadâmia | Fraqueza de patas traseiras, tremor e febre em até 12 h | Relatos a partir de 0,7 g/kg; sinais consistentes em 2,4 g/kg |
| Sal em excesso | Desequilíbrio de sódio, sede intensa e tremor em algumas horas | Sem dose única; petisco muito salgado, água do mar, massinha caseira |
Doses de Cortinovis & Caloni (2016) e do Merck Veterinary Manual; os links estão no fim do artigo.
Uva e passa — e o parente que ninguém cita
Uva é o caso mais desconcertante da toxicologia veterinária: cães que comeram um cacho inteiro passaram bem, e cães que comeram poucas unidades morreram de insuficiência renal. Por décadas ninguém sabia o porquê. Em 2021, o centro de controle de intoxicações da ASPCA ligou um caso de lesão renal em um cão que havia comido massinha de modelar caseira — feita com cremor de tártaro — aos envenenamentos por uva, e chegou ao suspeito: o ácido tartárico.
Essa descoberta acrescentou dois itens brasileiríssimos à lista, e eles não aparecem em lista nenhuma por aí: o tamarindo, que também é rico em ácido tartárico, e o cremor de tártaro usado em confeitaria e na massinha de brincar. A orientação publicada é tratar ingestão significativa dos dois como se fosse uva.
A concentração de ácido tartárico varia de 0,35% a 2% conforme a uva, o que explica a loteria: a mesma quantidade de fruta carrega doses muito diferentes. Por isso a conduta padrão é não tentar calcular — qualquer ingestão de uva ou passa em cão é motivo de ligar para o veterinário no mesmo dia, mesmo com o animal aparentemente bem. O tratamento precoce, com descontaminação e fluidoterapia, é justamente o que evita o rim quebrar.
O detalhe sazonal que faz esse item importar mais do que parece: o panetone com passas. Ele junta passa, chocolate e massa doce num pacote que fica na mesa da sala em dezembro, na altura do focinho.
Xilitol: o perigo que está na bolsa, não na cozinha
O xilitol é um álcool de açúcar usado como adoçante. No cão, ele provoca uma liberação de insulina que o organismo humano não tem — e a glicose despenca. O FDA descreve o efeito como podendo ocorrer "dentro de 10 a 60 minutos" depois da ingestão, com vômito seguido de fraqueza, cambaleio, incoordenação, colapso e convulsão. Acima de meio grama por quilo, entra em cena a lesão de fígado, que pode aparecer só 24 a 48 horas depois.
O que torna esse item traiçoeiro é onde ele está. Não é comida de prato: é chiclete e bala sem açúcar, pasta de dente, enxaguante bucal, vitamina mastigável, xarope, suplemento e alguns pés de amendoim — coisas que ficam na bolsa, na mesa de cabeceira e na pia do banheiro, e que o cão alcança sozinho. A bolsa esquecida no sofá é a cena clássica.
E há um problema prático brasileiro: o rótulo não diz quantos gramas de xilitol tem cada unidade. Sem esse número, não há conta a fazer em casa. A conduta é considerar qualquer ingestão como exposição, levar a embalagem junto e deixar o cálculo com quem vai atender.
Xilitol é problema de cão. O Merck Veterinary Manual é explícito: o cão é a única espécie doméstica em que a toxicose por xilitol foi descrita, e gatos não correm risco de hipoglicemia ou de lesão hepática por xilitol.
Cebola e alho: a conta que quase todo blog erra
Você vai ler por aí que "um dente de alho mata um cão de 20 quilos". A frase é repetida há anos e não bate com a literatura. Os números publicados são estes: sinais clínicos em cães a partir de 15 a 30 gramas de cebola crua por quilo de peso, e o alho sendo 3 a 5 vezes mais tóxico que a cebola.
Traduzindo para a cozinha, com uma cebola média em torno de 100 a 150 gramas e um dente de alho em torno de 3 a 5 gramas: um cão de 10 kg precisaria de algo como uma a três cebolas médias, ou de mais de dez dentes de alho, para chegar à faixa dos relatos. Ou seja: o refogado do feijão que ele roubou ontem provavelmente não vai derrubá-lo.
Isso não transforma cebola e alho em alimento liberado, por três motivos que a conta acima não mostra:
- O dano é oxidativo e cumulativo. Pouco todo dia, por semanas, tem efeito — e é assim que acontece de verdade, com a sobra da comida temperada virando rotina.
- A forma concentrada muda a escala. O risco maior está em alho e cebola desidratados, em pó, em tempero pronto e em caldo em cubo, onde alguns gramas de pó equivalem a muita cebola fresca.
- Gato é outra história. Ele é a espécie mais sensível: 5 g/kg já produzem alteração no sangue. Menos de uma colher de chá de cebola cozida bastou para causar toxicose em gato.
A anemia por Allium também engana pelo tempo: os corpúsculos de Heinz aparecem no sangue em 24 horas, mas os sinais de anemia podem levar dias. Cão que comeu farofa com cebola no domingo e ficou apático, ofegante e com urina escura na quarta não está com "virose": está com hemólise até prova em contrário. Urina cor de refrigerante escuro é sinal para ir à clínica no mesmo dia.
Álcool, massa crua, macadâmia e sal
Álcool derruba um cão com muito menos do que derruba uma pessoa, e o quadro é de depressão do sistema nervoso: incoordenação, letargia, hipotermia, acidose. Cerveja no fim da tarde "só para ver a cara que ele faz" é uma das poucas intoxicações que alguém provoca de propósito.
Massa crua de pão ou de pizza é o mesmo problema com um agravante mecânico. O fermento continua trabalhando no estômago quente e úmido: produz gás, que distende o estômago, e etanol, que passa para o sangue. Os sinais costumam aparecer dentro de uma hora, e a combinação de barriga tensa, dolorida, com tentativa de vomitar sem sair nada é uma das emergências mais graves da clínica de cães.
Macadâmia tem uma apresentação característica e assustadora: o cão fica com fraqueza nas patas traseiras, tremores, desequilíbrio e febre, geralmente dentro de 12 horas. A boa notícia é o desfecho: não há mortes relatadas na literatura consultada, e a recuperação costuma vir em 12 a 48 horas. A má é que fraqueza aguda de traseiro tem outras causas graves, e nenhuma delas se diagnostica em casa.
Sal raramente vem do saleiro. Vem do petisco industrializado muito salgado, da água do mar engolida no passeio da praia e da massinha de modelar caseira — aquela de farinha com sal, que também costuma levar cremor de tártaro e, por isso, aparece duas vezes neste artigo.
Os que machucam mas raramente matam
- Osso cozido — de frango, de costela, de qualquer coisa. Cozido, ele lasca em pontas rígidas; o risco é fratura de dente, perfuração e obstrução. O que a alimentação do cachorro explica em detalhe vale aqui em uma linha: osso não é petisco, é procedimento de risco.
- Espeto de churrasco — o pedaço de carne na ponta faz o cão engolir o palito inteiro. É cirurgia com frequência maior do que se imagina.
- Gordura de churrasco, fritura e pele de porco — a refeição gordurosa de uma vez só é o gatilho clássico de pancreatite, que dói muito e interna. Vômito repetido, dor abdominal e posição "de reza", com o peito no chão e o traseiro alto, pedem clínica hoje.
- Frutas com caroço — pêssego, ameixa, manga, abacate. O risco principal é o caroço: obstrução intestinal e fratura de dente.
- Carne e ovo crus — risco de salmonela e E. coli, para o animal e para a casa. Dieta crua é assunto de veterinário nutricionista, não de vídeo na internet.
- Leite e derivados — o cão adulto tem pouca lactase. O resultado costuma ser diarreia, e não intoxicação. Se já aconteceu, veja o que fazer com cachorro com diarreia.
- Castanhas em geral e amendoim salgado — muita gordura e sal, e nozes mofadas trazem um risco extra de micotoxina.
- Batata crua ou esverdeada e tomate verde — solanina e tomatina estão na planta e no fruto verde, não no tomate maduro.
- Embutidos e salgadinhos — linguiça, presunto, bacon, salgadinho de pacote: sal, gordura e tempero, os três de uma vez.
O que é mito, o que é exagero e o que não se sabe
Lista honesta também diz onde a evidência é fraca. Estes quatro itens aparecem em quase toda relação de "alimentos proibidos" com um peso que eles não têm:
- Abacate. A persina é um problema sério para aves e coelhos. Para cães e gatos, a própria ASPCA situa o risco de dano cardíaco como bem menor; o perigo prático do abacate é o caroço engolido e a quantidade de gordura.
- Tomate maduro. O que preocupa é a rama, a folha e o fruto verde. Um pedaço de tomate maduro na comida não é caso de emergência.
- Carambola. A fruta é rica em oxalato, e oxalato solúvel em quantidade pode lesar o rim. Mas os relatos em cães são poucos e o quadro não está bem descrito na literatura — por isso ela não entra na lista de emergência aqui. Na dúvida, não ofereça: é fácil de evitar e o benefício é zero.
- "Alho é antipulga natural." É a inversão mais perigosa desta lista, porque incentiva dar alho todo dia, de propósito, justamente na forma cumulativa que faz mal. Antipulga é o que tem registro e dose — o assunto está em pulga e carrapato em cachorro e gato.
A cozinha brasileira: onde o risco mora de verdade
Quase nenhum cão brasileiro come uma cebola sozinha. Ele come o prato pronto — e é aí que cebola, alho, sal, gordura e passa chegam juntos, na mesma colherada de sobra.
| O que a casa oferece | O que vai dentro | Por que preocupa |
|---|---|---|
| Panetone e chocotone | Uva-passa, chocolate, massa doce | Junta os dois itens mais graves da lista na mesma fatia, e fica ao alcance em dezembro |
| Feijão, arroz e farofa | Cebola e alho refogados, sal, gordura | É a via real do Allium no cão brasileiro — pouco, mas repetido |
| Churrasco | Osso, gordura, sal grosso, espeto | Pancreatite, obstrução e perfuração no mesmo domingo |
| Tempero pronto e caldo em cubo | Alho e cebola desidratados, muito sódio | Forma concentrada: pouca quantidade equivale a muita cebola fresca |
| Ovo de Páscoa | Chocolate ao leite ou meio amargo | Fica em cima da mesa e ao alcance por semanas |
| Doce de tamarindo e suco | Ácido tartárico | Mesmo princípio suspeito da uva, e não aparece em nenhuma lista |
O CRMV-SP tem uma recomendação simples para a ceia que vale para o ano inteiro: deixe o animal bem alimentado antes de a mesa ser posta, para ele não ficar pedindo, e combine com a família que o carinho substitui o prato. Convidado que "dá só um pedacinho" sem avisar é a origem de boa parte dos plantões de 25 de dezembro.
Ele comeu. E agora?
A primeira hora costuma decidir o custo e o desfecho. A sequência é esta:
- Tire o resto do alcance e veja o que sobrou. Quanto sumiu, de verdade?
- Guarde a embalagem. Ela tem a lista de ingredientes, o teor de cacau, a presença de xilitol — informações que mudam a conduta.
- Saiba o peso do animal. Toda dose é por quilo. "Médio" não serve.
- Ligue para o veterinário ou para a clínica 24 horas e conte três coisas: o que, quanto e há quanto tempo.
- Vá, se mandarem ir — mesmo sem sintoma nenhum. Em uva, xilitol e chocolate, esperar o sintoma é esperar o dano.
Água com sal, água oxigenada, leite, óleo, dedo na garganta: são as quatro receitas que circulam e as quatro fazem mal. Sal em quantidade é o próprio item sete desta lista; água oxigenada queima o estômago; e há situações em que vomitar é pior que não vomitar — substância corrosiva, animal já sonolento, cão convulsionando ou de focinho achatado, pelo risco de o conteúdo ir para o pulmão. Indução de vômito é procedimento com medicação injetável e janela de tempo, feito por quem pode intubar se der errado.
Na clínica, o roteiro costuma ser descontaminação — indução de vômito quando ainda faz sentido e carvão ativado —, exames de sangue conforme a substância e fluidoterapia, que é o que protege o rim nos casos de uva. Em xilitol, entra monitoramento de glicose e das enzimas do fígado por 24 a 48 horas. Nenhuma dessas coisas tem versão caseira.
Vale conhecer o vizinho de tema: remédio humano em cachorro e gato, porque a segunda cena mais comum depois do "ele comeu" é o "eu dei" — dipirona, paracetamol, anti-inflamatório da caixinha de casa.
No Brasil não existe 0800 para animal intoxicado
Nos Estados Unidos, a lista de alimentos proibidos termina sempre com o telefone do centro de controle de intoxicações animais. Aqui, não há equivalente. O Disque-Intoxicação 0800-722-6001, da Anvisa, funciona 24 horas e encaminha a ligação para um dos 36 centros da rede nacional — mas é um serviço de toxicologia humana, e a página oficial não menciona atendimento a animais.
Na prática, quem atende o seu caso é o seu veterinário ou a clínica 24 horas mais perto. E é por isso que este artigo termina com uma tarefa chata de cinco minutos, para fazer hoje e não no dia do susto:
- Descubra qual clínica perto de você atende de madrugada de verdade — muita clínica anuncia 24 horas e fecha às 22h. Ligue e confirme. Comece pela lista de veterinários da sua cidade.
- Anote o telefone dela e o do seu veterinário na geladeira e nos contatos do celular.
- Guarde o peso atualizado do animal junto, e a carteira de vacinação onde você ache.
- Saiba o caminho: no meio da noite, com o cão tremendo no colo, não é hora de descobrir endereço.
Gato não é cachorro pequeno
Três diferenças importam e nenhuma é intuitiva:
- Cebola e alho são piores para o gato. Ele é a espécie mais sensível, com alteração sanguínea a partir de 5 g/kg — e menos de uma colher de chá de cebola cozida já bastou em relato clínico. Caldo de galinha em pó no leite do gato é péssima ideia.
- Xilitol não é problema felino. A toxicose só foi descrita em cães.
- O risco número um do gato não é comida — é o paracetamol, que é veneno para ele em dose pequena, e são as plantas, com o lírio à frente. Gato que começou a vomitar depois de mexer em alguma coisa merece a leitura de gato vomitando: causas e o que fazer.
O que ele pode comer sem susto
A lista curta, para quem quer dar um agrado sem risco: cenoura crua ou cozida, maçã sem semente, banana, melancia sem semente, abóbora e batata-doce cozidas sem tempero, carne magra cozida sem sal e petisco próprio para cães. Nada disso vira refeição: a régua da nutrição clínica é que petisco não passe de 10% das calorias do dia — a conta está em alimentação do cachorro, e o que fazer quando o peso já subiu está em como fazer cachorro e gato emagrecer.
Duas regras fecham o assunto melhor do que qualquer lista. A primeira: comida temperada não é comida de cachorro — o problema quase nunca é o arroz, é o que foi colocado nele. A segunda: na dúvida, não dê. Nenhum cão ficou doente por causa do pedaço que não comeu.
Fontes consultadas
Os links abaixo foram abertos e conferidos em 15 de setembro de 2026. Onde a literatura diverge ou não tem número, isto está dito no texto em vez de ser preenchido com estimativa.
- ASPCA — People Foods to Avoid Feeding Your Pets: álcool e massa de fermento; metilxantinas do chocolate, café e cacau em pó; uva e passa e o dano renal; cebola, alho e cebolinha e o dano aos glóbulos vermelhos; lactose; macadâmia e as demais castanhas; carne e ovo crus e ossos; xilitol e sal; e a ressalva de que o abacate é problema sobretudo para aves e coelhos.
- ASPCA Pro — Toxic Component in Grapes and Raisins Identified: o ácido tartárico como princípio tóxico suspeito, o caso da massinha caseira com cremor de tártaro que levou à descoberta, o tamarindo como fonte adicional, a variação de 0,35% a 2% na uva e a recomendação de descontaminação e fluidoterapia.
- FDA — Paws Off Xylitol; It's Dangerous for Dogs: onde o xilitol aparece (goma e bala sem açúcar, pasta de dente, enxaguante, manteiga de amendoim, vitamina mastigável, xarope, suplemento), a liberação de insulina, a queda de glicose em 10 a 60 minutos, os sinais e a orientação de procurar atendimento imediatamente.
- Merck Veterinary Manual — Xylitol Toxicosis in Dogs: hipoglicemia acima de cerca de 100 mg/kg e lesão hepática acima de 500 mg/kg; sinais hepáticos a partir de 24 a 48 horas; e a afirmação de que o cão é a única espécie doméstica com toxicose descrita, sem risco para gatos.
- Merck Veterinary Manual — Garlic and Onion (Allium spp) Toxicosis in Animals: sinais clínicos em cães com 15 a 30 g/kg de cebola crua; alho de 3 a 5 vezes mais tóxico; gato como espécie mais suscetível; corpúsculos de Heinz em 24 horas com anemia clínica dias depois; e o risco maior das formas desidratadas, em pó e em tempero pronto.
- Merck Veterinary Manual — Macadamia Nut Toxicosis in Dogs: sinais a partir de 2,4 g/kg, início em até 12 horas, quadro de fraqueza, depressão, vômito, ataxia, tremor e hipertermia, com resolução em 12 a 48 horas.
- Cortinovis & Caloni, Frontiers in Veterinary Science, 2016 — Household Food Items Toxic to Dogs and Cats: as doses reunidas em revisão — 15 a 30 g/kg de cebola no cão e 5 g/kg no gato; quadro clínico com quatro a cinco uvas num cão de 8,2 kg; macadâmia a partir de 0,7 g/kg; xilitol a partir de 0,03 g/kg para hipoglicemia e 0,5 g/kg para falha hepática; metilxantinas com sinais leves em 20 mg/kg e convulsão perto de 60 mg/kg; e a massa de fermento com sinais em cerca de uma hora.
- CRMV-SP — Ceia de Natal pode ser perigosa aos pets: nozes, uva-passa, macadâmia, tomate, chocolate, condimentos, alho e cebola entre os alimentos a evitar, e a recomendação de alimentar bem o animal antes da ceia para ele não ficar pedindo.
- CRMV-SP — Seis alimentos que podem prejudicar a saúde do seu bichinho: a falta de lactase em cães e gatos, o risco de perfuração por ossos, a contaminação da carne crua e o efeito das sobras de comida sobre a dieta.
- Anvisa — Disque-Intoxicação: 0800-722-6001, atendimento 24 horas por dia, sete dias por semana, encaminhado a uma das 36 unidades da rede nacional. A página descreve o serviço de toxicologia humana e não menciona atendimento veterinário.
O que não entrou, e por quê: não há neste artigo tabela de "gramas por porte" para uva, porque a dose tóxica não é conhecida e publicar uma inventaria segurança onde não existe; não há número de casos de intoxicação alimentar de animais no Brasil, porque os levantamentos disponíveis são locais, de hospitais universitários específicos, e não sustentam um total nacional; e não há dose de xilitol por chiclete, porque o rótulo não informa o teor por unidade.
Perguntas frequentes
Meu cachorro comeu uma uva só. Preciso me preocupar?
Sim, o bastante para ligar para o veterinário no mesmo dia. Não existe dose segura conhecida de uva para cães: a concentração de ácido tartárico varia de 0,35% a 2% conforme a fruta, e há relato de quadro clínico com quatro a cinco uvas num cão de 8,2 kg. O tratamento precoce, com descontaminação e fluidoterapia, é justamente o que evita a lesão renal — esperar o vômito aparecer é esperar o dano começar. Vale o mesmo para uva-passa, suco de uva, tamarindo e cremor de tártaro.
Posso fazer meu cachorro vomitar em casa?
Não. As receitas que circulam — água com sal, água oxigenada, óleo, dedo na garganta — são perigosas por si só: sal em quantidade é uma das intoxicações desta lista e água oxigenada agride o estômago. Há ainda situações em que vomitar piora o quadro, como substância corrosiva, animal já sonolento ou convulsionando e cão de focinho achatado, pelo risco de o conteúdo ir para o pulmão. A indução de vômito é feita na clínica, com medicação injetável e dentro de uma janela de tempo.
Cachorro pode comer comida com alho e cebola?
Não deve. A literatura registra sinais clínicos em cães a partir de 15 a 30 gramas de cebola crua por quilo de peso, com o alho de 3 a 5 vezes mais tóxico — ou seja, a colherada de feijão refogado raramente derruba um cão adulto. O problema é outro: o dano aos glóbulos vermelhos é oxidativo e cumulativo, e as formas concentradas (alho e cebola em pó, tempero pronto, caldo em cubo) entregam muito em pouco volume. Em gatos, que são a espécie mais sensível, bastam 5 g/kg.
Quanto tempo depois aparecem os sintomas?
Depende da substância, e essa é a razão de não esperar para ver. Massa crua de pão dá sinais em cerca de uma hora; xilitol, entre 30 e 60 minutos, podendo atrasar até 12 horas, com a lesão de fígado só depois de 24 a 48 horas; chocolate, de 2 a 4 horas; macadâmia, em até 12 horas; uva, com vômito nas primeiras 24 horas; e a anemia por cebola e alho pode levar vários dias para dar as caras.
Xilitol faz mal para gato também?
Não. O Merck Veterinary Manual é explícito: o cão é a única espécie doméstica em que a toxicose por xilitol foi descrita, e gatos não correm risco de hipoglicemia nem de lesão hepática por essa substância. A inversão vale para cebola e alho: nesse caso é o gato quem corre mais risco, com alteração sanguínea a partir de 5 g/kg, contra 15 a 30 g/kg no cão.
Cachorro pode comer osso?
Osso cozido, não — de frango, de costela, de qualquer origem. O cozimento deixa o osso quebradiço, e ele lasca em pontas rígidas que causam fratura de dente, perfuração e obstrução. O espeto de churrasco é ainda mais traiçoeiro, porque o pedaço de carne na ponta faz o cão engolir o palito inteiro. Para a vontade de mastigar existem mordedores próprios para cães e petiscos dentais, sempre dentro dos 10% de calorias do dia.
Existe um telefone de emergência para intoxicação de animais no Brasil?
Não há equivalente nacional ao centro de controle de intoxicações animais que existe nos Estados Unidos. O Disque-Intoxicação da Anvisa, 0800-722-6001, funciona 24 horas e encaminha a ligação a um dos 36 centros da rede nacional, mas é um serviço de toxicologia humana e a página oficial não menciona atendimento a animais. Quem atende o seu caso é o seu veterinário ou a clínica 24 horas mais próxima — confirme hoje qual delas atende de madrugada de verdade e deixe o telefone anotado antes de precisar.
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